Receber um diagnóstico de catarata — ou suspeitar que a sua visão está a mudar devido a ela — pode gerar ansiedade. É natural preocupar-se com a saúde dos seus olhos. No entanto, a primeira coisa que deve saber é que não está sozinho. A catarata é uma parte natural do envelhecimento ocular e, felizmente, é a causa mais comum de cegueira reversível no mundo.
Em termos simples, a catarata é a perda de transparência do cristalino, a lente natural do nosso olho. Imagine tentar olhar através de uma janela que está permanentemente embaciada ou suja; é assim que a visão se torna com o avançar desta condição. Embora o processo seja progressivo, a medicina oftalmológica moderna oferece soluções extremamente seguras e eficazes para restaurar a sua visão e qualidade de vida.
Neste guia completo, vamos explicar exatamente o que acontece dentro do seu olho, identificar os sinais de alerta que não deve ignorar e desmistificar como é feito o diagnóstico.
Artigo informativo elaborado pela nossa equipa e integralmente revisto pelo Dr. Douglas Pigosso, médico oftalmologista especialista em Retina e Mácula. CRM-DF: 12769 e RQE: 6992.
O que Causa a Catarata?
Para entender a catarata, precisamos primeiro visualizar o funcionamento do olho. Dentro do globo ocular, logo atrás da parte colorida (íris), existe uma lente natural chamada cristalino. Num olho jovem e saudável, o cristalino é transparente e flexível, funcionando como a lente de uma câmera fotográfica de alta precisão: ele foca a luz na retina para formar uma imagem nítida.
A Analogia da “Clara do Ovo”
Pense no cristalino como a clara de um ovo cru: transparente e límpida. O cristalino é composto maioritariamente por água e proteínas organizadas de forma perfeita para deixar a luz passar. Com o passar dos anos (ou devido a outros fatores de risco), estas proteínas começam a desorganizar-se e aglomerar-se. É um processo químico semelhante ao cozinhar a clara do ovo: ela torna-se branca e opaca. Quando essa opacidade bloqueia ou distorce a luz que entra no olho, chamamos-lhe catarata.
Tipos Principais e Variações
A catarata não é igual para todos. A localização da opacidade no cristalino define o tipo e os sintomas:
- Catarata Nuclear: A forma mais comum, associada ao envelhecimento. Ocorre no centro (núcleo) da lente, causando um amarelamento gradual da visão.
- Catarata Cortical: Começa nas bordas do cristalino, formando “raios” brancos que avançam para o centro. É comum em pacientes diabéticos.
- Catarata Subcapsular Posterior: Forma-se na parte de trás da lente, no caminho direto da luz. Progride mais rapidamente e afeta muito a leitura e a visão noturna (encandeamento). Frequentemente associada ao uso de esteroides ou diabetes.
Principais Fatores de Risco
Embora o envelhecimento seja o fator predominante (Catarata Senil), estudos recentes publicados em revistas de alto impacto como The Lancet e JAMA Ophthalmology identificam outros aceleradores da doença:
- Idade: A maioria das cataratas desenvolve-se após os 60 anos, resultado do stress oxidativo acumulado.
- Diabetes Mellitus: Pacientes diabéticos têm um risco significativamente maior e tendem a desenvolver catarata mais cedo devido às flutuações de glicose que afetam a hidratação do cristalino.
- Exposição à Radiação UV: A exposição solar crónica sem proteção adequada acelera a desnaturação das proteínas oculares.
- Tabagismo: Fumadores têm um risco aumentado devido à maior presença de radicais livres no organismo.
- Uso de Corticosteroides: O uso prolongado de medicamentos à base de cortisona (colírios ou orais) é um fator de risco bem documentado.
- Trauma Ocular: Pancadas ou ferimentos no olho podem desencadear a catarata imediatamente ou anos depois.
Quais são os Sintomas Silenciosos da Catarata?
A catarata é frequentemente chamada de “ladra silenciosa da visão clara” porque, nas fases iniciais, pode não apresentar sintomas óbvios. O cérebro adapta-se à mudança gradual, e o paciente pode não perceber a perda de qualidade visual até que ela se torne significativa.
Sintomas Iniciais e Silenciosos
- Necessidade de Mais Luz: Pode notar que precisa de lâmpadas mais fortes para ler ou realizar tarefas manuais.
- A “Segunda Visão”: Curiosamente, algumas pessoas experimentam uma melhoria temporária na visão de perto (ficam mais míopes), conseguindo ler sem óculos por um breve período. Isso ocorre porque a catarata nuclear muda o índice de refração do olho. Infelizmente, é um efeito passageiro.
- Alteração Frequente de Grau: Se a graduação dos seus óculos muda com frequência (a cada 6 meses ou 1 ano), pode ser um sinal de instabilidade no cristalino.
Sintomas Tardios (Fase Avançada)
À medida que a opacidade aumenta, os sintomas tornam-se mais intrusivos:
- Visão Embaçada ou Nublada: A sensação constante de olhar por um vidro sujo.
- Sensibilidade à Luz (Fotofobia) e Halos: Ver anéis de luz (halos) ao redor de faróis de carros à noite, tornando a condução noturna difícil e perigosa.
- Cores Desbotadas: As cores parecem menos vibrantes ou com um tom amarelado/acastanhado.
- Visão Dupla (Diplopia Monocular): Ver duas imagens num só olho (mesmo tapando o outro).
Atenção: Sinais de Alerta (Emergência)
A catarata é tipicamente uma condição crónica de evolução lenta. No entanto, uma catarata muito avançada (“hipermadura”) pode inchar e vazar proteínas, causando inflamação grave ou aumento súbito da pressão ocular (glaucoma facolítico).
Se sentir dor ocular súbita, vermelhidão intensa, náuseas e perda abrupta de visão, procure um serviço de urgência oftalmológica imediatamente.
Como o Oftalmologista Diagnostica a Catarata?
O diagnóstico da catarata é rápido, indolor e extremamente preciso. Não é necessário nenhum procedimento invasivo para confirmar a doença. Durante a consulta, o médico oftalmologista realizará uma série de exames integrados:
- Teste de Acuidade Visual: O clássico exame da tabela de letras (Tabela de Snellen) para medir o quanto a sua visão está afetada em diferentes distâncias.
- Biomicroscopia (Lâmpada de Fenda): Este é o principal exame. O médico usa um microscópio especial com uma luz em fenda que permite ver o cristalino em detalhe, com grande aumento. É aqui que se localiza a catarata e se classifica a sua densidade e tipo.
- Mapeamento de Retina (Exame de Fundo de Olho): Após dilatar a pupila com colírios, o médico examina a retina e o nervo ótico. Este passo é crucial para garantir que a perda de visão é causada apenas pela catarata e não por outros problemas, como degeneração macular ou glaucoma.
O Diagnóstico é o Primeiro Passo
Receber o diagnóstico não é o fim, mas sim o início da solução. Ao contrário de muitas condições oculares que apenas podem ser geridas, a catarata pode ser resolvida. A cirurgia de catarata é um dos procedimentos mais realizados e bem-sucedidos em toda a medicina.
Felizmente, o avanço da medicina oftalmológica oferece hoje tratamentos muito eficazes para controlar a condição e preservar a sua visão, substituindo o cristalino opaco por uma lente intraocular moderna que pode, inclusive, corrigir outros problemas de visão como a miopia ou o astigmatismo.
Conclusão
A catarata é uma evolução natural dos nossos olhos, mas não precisa de significar uma sentença de má visão permanente. Embora comece de forma silenciosa, os sinais de alerta como visão embaçada, dificuldade na condução noturna e cores desbotadas não devem ser ignorados. Consultas regulares com o oftalmologista são a única forma de detetar a doença precocemente e planear o tratamento no momento certo, antes que a sua qualidade de vida seja comprometida.
Se tem mais de 50 anos ou notou alterações na sua visão, agende uma avaliação. Cuidar da sua visão é cuidar da sua independência.
Referências Científicas
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- Thompson, J., & Lakhani, N. (2015). “Cataracts”. Primary Care: Clinics in Office Practice, 42(3), 409-423. (Foco em sintomas e apresentação clínica).
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